sábado, 6 de junho de 2015

VOCÊ SABE QUAL O DIA EM QUE FOI SALVO? UMA REFLEXÃO SOBRE “LEVANTAR A MÃO”, CHARLES FINNEY E SEU LEGADO

Há um hino antigo (HC 201 –“ Dia Feliz!”) que faz referência ao dia da conversão:
Oh! Dia alegre! Eu abracei
Jesus, e nele, salvação!
O gozo deste coração
Eu mais e mais publicarei

Oh saudades desses hinos antigos! Mas isso fica para outra postagem. Pois bem, eis que surge a questão – você sabe qual o dia em que foi salvo?

Posso até ouvir os pensamentos de alguns que leem isto.

- Ora, é claro que sei! Foi no dia 8 de março de 1987, um domingo à noite! Lembro-me como se fosse hoje! Estava num culto a convite de um amigo. O pastor pregou poderosa mensagem evangelística e, no final, fez o apelo... fui à frente, o pastor orou por mim, chorei muito...

E ai de quem não souber responder! Afinal, somos protestantes, diferentes dos católicos romanos, que creem em regeneração batismal. Todo católico é, por definição (segundo creem), regenerado – pois não há católico que não os batizados na Santa Madre Igreja[1]. Roma ensina que o batismo é o sacramento pelo qual, pela graça, nascemos para a vida nova em Cristo. Ainda segundo Roma, “o batismo limpa o pecado original e faz-nos filhos de Deus e membros da Igreja” Conforme essa crença, há poder intrínseco no ato de batizar um bebê ou quem quer que seja, poder esse que age independentemente de fé ou arrependimento – pelo mero fato de o sacerdote romano realizar a cerimônia, isto é, ex opere operato, como se diz. Se alguém perguntar a um católico romano se ele se lembra do dia em que se converteu, provavelmente sua pergunta não será entendida, não fará o menor sentido. Naturalmente, ninguém se lembra do seu batismo quando bebê!. Nesse entendimento, “todos” os católicos são regenerados, independentemente de como vivam, devido à assim chamada “graça batismal”. Você nunca ouvirá um católico fazendo essa pergunta a outro. Ou pior – a pergunta será encarada como ameaçadora, como crítica, como censura. Mas, como dizia, devemos nos guiar exclusivamente pelo ensino bíblico. Sola Scriptura! Não há salvação sem arrependimento para com Deus e fé em Jesus Cristo[2].

Certa feita, lá pelos idos da década de 70, conversávamos eu, meu pai e meu irmão José Samuel com um rapaz que também era evangélico. O assunto era o ministério do meu pai. Ele contava sobre as igrejas que já pastoreara, o trabalho que exercera como professor missionário em Angola etc. Lá pelas tantas, o rapaz perguntou, à queima-roupa, quando precisamente meu pai se havia convertido. Para o meu constrangimento (e também do meu irmão), a resposta do meu pai foi evasiva. Disse que “desde miúdo” ajudava na igreja, que “sempre” saía com o meu avô para auxiliar nos trabalhos da igreja em Portugal, onde vivia, enfim, falou e falou sobre tudo o que fez e fazia, mas não contou nenhuma “experiência de conversão” e muito menos especificou quando terá ocorrido.

Mais tarde conversamos, eu e o meu irmão, sobre o ocorrido. O Zé, como lhe chamamos em família, propôs uma explicação que, à época, fez sentido para mim.

- João, talvez ele se tenha convertido há menos tempo do que gostaria de admitir publicamente.

Entendo isso. Ser crente há muitos anos tem seu charme, sua distinção. Já os novos convertidos... bem, não se pode confiar neles, não é? O apóstolo Paulo vedou, aos neófitos[3], exercer cargos de liderança e destaque na igreja. Ou então, se o meu pai dissesse que só fazia poucos anos que havia entregado sua vida a Cristo, seu vasto ministério prévio iria por água abaixo. Se não era convertido, o que dizer dos anos anteriores em que foi pastor episcopal em Gaia? Pastor não convertido? Missionário ímpio?

Hoje tenho outra possível explicação para aquela situação. Penso que ele realmente poderia não saber, sim, ignorar, quando precisamente se converteu. Heim???

Pois é. Já ouviu falar da história do súdito de Sua Majestade que perguntou a um cacique norte-americano quando havia nascido? Obviamente que as sociedades indígenas não usavam certidões de nascimento. O velho índio pensou, pensou e terminou por responder:

- Não sei quando nasci, mas estou certo que nasci!

Com respeito ao novo nascimento, temos na Bíblia exemplos “dramáticos” de pessoas em cujas vidas houve um evento divisor de águas, um “antes” e um “depois”. É o caso de Saulo de Tarso, no caminho de Damasco[4], ou da mulher samaritana à beira do poço[5], ou do eunuco que foi batizado por Filipe[6] e do carcereiro de Filipos[7]. Todavia, temos também diversos outros exemplos de personagens bíblicas sobre as quais não há a menor dúvida que foram regeneradas e das quais não temos a menor ideia de quando, precisamente, isso ocorreu.

Quando foi que Isaías se converteu? E Moisés? E Davi, Timóteo, Barnabé, Pedro, Maria? E João Batista? Bem, a Bíblia de fato não conta muitas minúcias da vida de Timóteo ou de Barnabé – mas dá mesmo muitos pormenores a respeito de Moisés e de Davi, porém não o dia da conversão deles!  Simplesmente não cita, nem detalha como foi. Sabemos como foi a vocação de Moisés para o ministério, junto à sarça no deserto, mas não me parece que sua conversão ocorreu ali. Afinal, antes disso, ele já havia sido instruído na fé por seus pais, e, principalmente, já havia rejeitado as riquezas e glória do Egito em troca do opróbrio de Cristo (Hb 11. 24 a 26). Quer melhor fruto do que esse para evidenciar uma conversão?

Se ao Espírito Santo não pareceu imprescindível informar precisamente quando essas personagens bíblicas se converteram, certamente a informação não é essencial. Bem, isso não significa que não o soubessem, admito. Mas também nos faz pensar se a exigência que todos saibam seja exigência bíblica.

A condição sine qua non para a salvação é o arrependimento e a fé em Cristo, e não saber dizer exatamente quando essa fé passou a operar. Isso se deduz com clareza partir do ensino bíblico.

Outro exemplo interessante é Jacó. É crença comum no meio evangélico que ele se converteu quando lutou com o anjo em Jaboque. “Vi a Deus face a face e a minha vida foi salva (Gn 32.30).” De fato, ali, Deus lhe mudou o nome, de Jacó (enganador) para Israel (aquele que luta com Deus). Não obstante, antes de Jaboque ele já orava a Deus (Gn 28.18 a 23) e essa oração foi ouvida (Gn 31.13), e pouco antes da luta com o anjo, Jacó orou (Gn 32.11) e foi ouvido. Antes de Jaboque, Deus o abençoou com esposas e filhos, com riquezas, com proteção, com visitas de anjos... E aí, com é que fica? A “vida salva” pode bem ter sido referência ao livramento que buscava do seu irmão Esaú, que vinha vindo ao seu encontro disposto a acertas as contas – e não à salvação da sua alma.

O fato é que nem todos saberão dizer exatamente quando se converteram, mas todos podem e devem ter certeza de sua salvação. Como dizia o ministro do STF, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa!”

Penso que parte do motivo pelo qual muitos evangélicos não veem com bons olhos os que não sabem dizer quando se converteram é que, de fato, alguns desses podem mesmo nunca ter tido encontro real com Deus. Não excluo essa possiblidade. Mas não podemos generalizar e errar pelo outro extremo e julgar as pessoas como falsos discípulos de Jesus pelo simples fato de não saberem dizer quando se converteram. Muitos há que começam a se interessar pelas coisas espirituais, passam a ler a Bíblia, a frequentar cultos, sentem real pesar pelos seus pecados, passam a orar e quando se dão conta, percebem que têm paz com Deus, que se relacionam com Deus, que descansam de fato em Cristo – sem que tenham, necessariamente, tido uma experiência dramática de “levantar a mão e ir à frente” à Finney! Ou seja, houve, sim, a conversão, devidamente evidenciada por frutos, mas o convertido não percebeu exatamente quando.

O fato é que essa prática de “levantar a mão” passou a ter valor sacramental para o meio gospel – e, gostem ou não, não há, na Bíblia, nem exemplo nem preceito para tal! Aliás, a igreja nunca praticou isso por 1800 anos, senão depois do herege[8] Charles Finney com seu pelagianismo no século XIX. E antes de me crucificarem, quero deixar claro: não estou pondo em dúvida a salvação de todos os que “levantaram a mão”, mas afirmo, com toda a certeza, que muitos que se “converteram” assim estão hoje no inferno, pois exerceram fé na “cerimônia de aceitar Jesus” ao passo que o que salva é a fé em Cristo, não qualquer coisa que façamos. Já soube de pessoas que disseram que “queriam se converter, mas o pastor não fez apelo”! A que ponto chegamos! Entenda - exortar os pecadores ao arrependimento e á fé é necessário e bíblico. Pôr como condição que levantem a mão, que vão à frente, que preencham uma ficha de novos convertidos não. O problema é que há quem atribua sua salvação a essas coisas. 

Até aos dias de Finney, exortavam-se as pessoas a se converterem a Deus, a se arrependerem dos seus pecados e a confiarem em Cristo como único e suficiente Salvador – mas não se faziam “apelos” – e nem por isso deixava de haver verdadeiras conversões. Quando alguém passava a demonstrar frutos do novo nascimento, naturalmente buscava o batismo e professar a fé que recebera.

Ninguém perguntava quando havia ocorrido a regeneração. Era informação totalmente dispensável. Será que essa cobrança moderna no meio gospel não seria outro fruto podre do pelagianismo de Finney?

É interessante lembrar que foi justamente ao conversar com Nicodemos sobre o novo nascimento que Jesus ensinou que “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito.” (Jo 3.8)

A minha própria experiência de conversão deu-se em 28 de abril de 1978, aos 14 anos. Estava só em casa, sim, sozinho, eu e Deus, no escritório do meu pai em Pretória, África do Sul, onde morava. Uma sexta-feira gelada, à noite. Não foi num culto. Não levantei a mão. Já desconfiei de muita gente que não soube dizer-me o dia preciso. Hoje não mais considero esse um critério válido.

Este teólogo amador que vos escreve ponderou isso e chegou à conclusão que não é essencial saber exatamente qual foi o dia da conversão.  PONDERE ISSO!




[1] Catecismo da Igreja Católica, &1263: “Pelo Baptismo todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas devidas ao pecado (61). Com efeito, naqueles que foram regenerados, nada resta que os possa impedir de entrar no Reino de Deus: nem o pecado de Adão, nem o pecado pessoal, nem as consequências do pecado, das quais a mais grave é a separação de Deus.” – citado aqui na ortografia lusitana como consta no site oficial do Vaticano em http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap1_1210-1419_po.html acessado em 06/06/2015.
[2] At 20.21
[3] 1 Tm 3.6 – “não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça, e incorra na condenação do diabo.”
[4] At 9
[5] Jo 4
[6] At 8.26. - 40
[7] At 16. 27 a 34
[8] Muitos adeptos do “não julgueis” detestarão essa minha descrição de Finney, mas poucos sabem que ele renegou diversas doutrinas básicas do cristianismo como o pecado original, a expiação substitutiva de Cristo, a justificação pela fé, ensinava a perda de salvação diante de qualquer pecado, cria no perfeicionismo, e que o homem podia produzir um avivamento sempre e quando o quisesse, bastando para tal apenas usar as “leis”...  não há como rotular alguém que negue a expiação na cruz ou o pecado original ou pior, a justificação pela fé pela imputação da justiça de Cristo aos que creem como qualquer outra coisa que não herege. Para uma boa análise dos seus ensinos contrários às Escrituras e ao cristianismo histórico, sugiro a leitura de de um excelente artigo disponível em http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/403/o_legado_de_charles_finney