VOCÊ SABE QUAL O DIA EM QUE FOI SALVO? UMA REFLEXÃO SOBRE “LEVANTAR A MÃO”,
CHARLES FINNEY E SEU LEGADO
Há um hino
antigo (HC 201 –“ Dia Feliz!”) que faz referência ao dia da conversão:
Oh! Dia alegre! Eu abracei
Jesus, e nele, salvação!
O gozo deste coração
Eu mais e mais publicarei
Oh saudades
desses hinos antigos! Mas isso fica para outra postagem. Pois bem, eis que
surge a questão – você sabe qual o dia em que foi salvo?
Posso até
ouvir os pensamentos de alguns que leem isto.
- Ora, é
claro que sei! Foi no dia 8 de março de 1987, um domingo à noite! Lembro-me
como se fosse hoje! Estava num culto a convite de um amigo. O pastor pregou
poderosa mensagem evangelística e, no final, fez o apelo... fui à frente, o
pastor orou por mim, chorei muito...
E ai de quem não souber responder!
Afinal, somos protestantes, diferentes dos católicos romanos, que creem em regeneração
batismal. Todo católico é, por definição (segundo creem), regenerado – pois não há
católico que não os batizados na Santa Madre Igreja[1].
Roma ensina que o batismo é o sacramento pelo qual, pela graça, nascemos para a
vida nova em Cristo. Ainda segundo Roma, “o batismo limpa o pecado original e
faz-nos filhos de Deus e membros da Igreja” Conforme essa crença, há poder
intrínseco no ato de batizar um bebê ou quem quer que seja, poder esse que age independentemente de
fé ou arrependimento – pelo mero fato de o sacerdote romano realizar a
cerimônia, isto é, ex opere operato,
como se diz. Se alguém perguntar a um católico romano se ele se lembra do dia
em que se converteu, provavelmente sua pergunta não será entendida, não fará o
menor sentido. Naturalmente, ninguém se lembra do seu batismo quando bebê!. Nesse entendimento, “todos” os católicos são regenerados, independentemente de como vivam, devido à assim chamada “graça batismal”. Você nunca
ouvirá um católico fazendo essa pergunta a outro. Ou pior – a pergunta será
encarada como ameaçadora, como crítica, como censura. Mas, como dizia, devemos nos guiar exclusivamente pelo ensino bíblico. Sola
Scriptura! Não há salvação sem arrependimento para com Deus e fé em
Jesus Cristo[2].
Certa feita,
lá pelos idos da década de 70, conversávamos eu, meu pai e meu irmão José
Samuel com um rapaz que também era evangélico. O assunto era o ministério do
meu pai. Ele contava sobre as igrejas que já pastoreara, o trabalho que exercera
como professor missionário em Angola etc. Lá pelas tantas, o rapaz perguntou, à
queima-roupa, quando precisamente meu pai se havia convertido. Para o meu
constrangimento (e também do meu irmão), a resposta do meu pai foi evasiva. Disse que “desde miúdo”
ajudava na igreja, que “sempre” saía com o meu avô para auxiliar nos trabalhos
da igreja em Portugal, onde vivia, enfim, falou e falou sobre tudo o que fez e
fazia, mas não contou nenhuma “experiência de conversão” e muito menos
especificou quando terá ocorrido.
Mais tarde
conversamos, eu e o meu irmão, sobre o ocorrido. O Zé, como lhe chamamos em família,
propôs uma explicação que, à época, fez sentido para mim.
- João,
talvez ele se tenha convertido há menos tempo do que gostaria de admitir
publicamente.
Entendo isso.
Ser crente há muitos anos tem seu charme, sua distinção. Já os novos
convertidos... bem, não se pode confiar neles, não é? O apóstolo Paulo vedou,
aos neófitos[3],
exercer cargos de liderança e destaque na igreja. Ou então, se o meu pai dissesse
que só fazia poucos anos que havia entregado sua vida a Cristo, seu vasto
ministério prévio iria por água abaixo. Se não era convertido, o que dizer dos
anos anteriores em que foi pastor episcopal em Gaia? Pastor não convertido? Missionário
ímpio?
Hoje tenho outra possível explicação para
aquela situação. Penso que ele realmente poderia não saber, sim, ignorar, quando precisamente se converteu. Heim???
Pois é. Já
ouviu falar da história do súdito de Sua Majestade que perguntou a um cacique
norte-americano quando havia nascido? Obviamente que as sociedades indígenas
não usavam certidões de nascimento. O velho índio pensou, pensou e terminou por
responder:
- Não sei
quando nasci, mas estou certo que nasci!
Com respeito
ao novo nascimento, temos na Bíblia exemplos “dramáticos” de pessoas em cujas
vidas houve um evento divisor de águas, um “antes” e um “depois”. É o caso de
Saulo de Tarso, no caminho de Damasco[4],
ou da mulher samaritana à beira do poço[5],
ou do eunuco que foi batizado por Filipe[6]
e do carcereiro de Filipos[7].
Todavia, temos também diversos outros exemplos de personagens bíblicas sobre as
quais não há a menor dúvida que foram regeneradas e das quais não temos a menor
ideia de quando, precisamente, isso ocorreu.
Quando foi
que Isaías se converteu? E Moisés? E Davi, Timóteo, Barnabé, Pedro, Maria? E
João Batista? Bem, a Bíblia de fato não conta muitas minúcias da vida de
Timóteo ou de Barnabé – mas dá mesmo muitos pormenores a respeito de Moisés e
de Davi, porém não o dia da conversão deles! Simplesmente não cita, nem detalha como foi.
Sabemos como foi a vocação de Moisés
para o ministério, junto à sarça no deserto, mas não me parece que sua conversão ocorreu ali. Afinal, antes
disso, ele já havia sido instruído na fé por seus pais, e, principalmente, já
havia rejeitado as riquezas e glória do Egito em troca do opróbrio de Cristo
(Hb 11. 24 a 26). Quer melhor fruto do que esse para evidenciar uma conversão?
Se ao Espírito Santo não pareceu imprescindível
informar precisamente quando essas personagens bíblicas se converteram,
certamente a informação não é essencial. Bem, isso não significa que não o
soubessem, admito. Mas também nos faz pensar se a exigência que todos saibam
seja exigência bíblica.
A condição sine qua non para a salvação é o
arrependimento e a fé em Cristo, e não saber dizer exatamente quando essa fé
passou a operar. Isso se deduz com clareza partir do ensino bíblico.
Outro exemplo
interessante é Jacó. É crença comum no meio evangélico que ele se converteu
quando lutou com o anjo em Jaboque. “Vi a Deus face a face e a minha vida foi
salva (Gn 32.30).” De fato, ali, Deus lhe mudou o nome, de Jacó (enganador)
para Israel (aquele que luta com Deus). Não obstante, antes de Jaboque ele já
orava a Deus (Gn 28.18 a 23) e essa oração foi ouvida (Gn 31.13), e pouco antes
da luta com o anjo, Jacó orou (Gn 32.11) e foi ouvido. Antes de Jaboque, Deus o
abençoou com esposas e filhos, com riquezas, com proteção, com visitas de
anjos... E aí, com é que fica? A “vida salva” pode bem ter sido referência ao
livramento que buscava do seu irmão Esaú, que vinha vindo ao seu encontro
disposto a acertas as contas – e não à salvação da sua alma.
O fato é que
nem todos saberão dizer exatamente quando se converteram, mas todos podem e devem ter certeza de sua
salvação. Como dizia o ministro do STF, uma coisa é uma coisa e outra coisa
é outra coisa!”
Penso que
parte do motivo pelo qual muitos evangélicos não veem com bons olhos os que não
sabem dizer quando se converteram é que, de fato, alguns desses podem mesmo nunca ter tido encontro
real com Deus. Não excluo essa possiblidade. Mas não podemos generalizar e errar
pelo outro extremo e julgar as pessoas como falsos discípulos de Jesus pelo
simples fato de não saberem dizer quando se converteram. Muitos há que começam
a se interessar pelas coisas espirituais, passam a ler a Bíblia, a frequentar
cultos, sentem real pesar pelos seus pecados, passam a orar e quando se dão
conta, percebem que têm paz com Deus, que se relacionam com Deus, que descansam
de fato em Cristo – sem que tenham, necessariamente,
tido uma experiência dramática de “levantar a mão e ir à frente” à Finney! Ou
seja, houve, sim, a conversão, devidamente evidenciada por frutos, mas o
convertido não percebeu exatamente quando.
O fato é que essa
prática de “levantar a mão” passou a ter valor
sacramental para o meio gospel – e, gostem ou não, não há, na Bíblia, nem exemplo nem preceito para tal! Aliás, a
igreja nunca praticou isso por 1800 anos, senão depois do herege[8] Charles
Finney com seu pelagianismo no século XIX. E antes de me crucificarem, quero
deixar claro: não estou pondo em dúvida a salvação de todos os que “levantaram
a mão”, mas afirmo, com toda a certeza, que muitos que se “converteram” assim
estão hoje no inferno, pois exerceram fé na “cerimônia de aceitar Jesus” ao
passo que o que salva é a fé em Cristo, não qualquer coisa que façamos. Já
soube de pessoas que disseram que “queriam se converter, mas o pastor não fez
apelo”! A que ponto chegamos! Entenda - exortar os pecadores ao arrependimento e á fé é necessário e bíblico. Pôr como condição que levantem a mão, que vão à frente, que preencham uma ficha de novos convertidos não. O problema é que há quem atribua sua salvação a essas coisas.
Até aos dias
de Finney, exortavam-se as pessoas a se converterem a Deus, a se arrependerem
dos seus pecados e a confiarem em Cristo como único e suficiente Salvador – mas
não se faziam “apelos” – e nem por isso deixava de haver verdadeiras conversões.
Quando alguém passava a demonstrar frutos
do novo nascimento, naturalmente buscava o batismo e professar a fé que
recebera.
Ninguém
perguntava quando havia ocorrido a regeneração. Era informação totalmente
dispensável. Será que essa cobrança moderna no meio gospel não seria outro
fruto podre do pelagianismo de Finney?
É
interessante lembrar que foi justamente ao conversar com Nicodemos sobre o novo
nascimento que Jesus ensinou que “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas
não sabes donde vem nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do
Espírito.” (Jo 3.8)
A minha própria
experiência de conversão deu-se em 28 de abril de 1978, aos 14 anos. Estava só
em casa, sim, sozinho, eu e Deus, no escritório do meu pai em Pretória, África
do Sul, onde morava. Uma sexta-feira gelada, à noite. Não foi num culto. Não
levantei a mão. Já desconfiei de muita gente que não soube dizer-me o dia
preciso. Hoje não mais considero esse um critério válido.
Este teólogo
amador que vos escreve ponderou isso e chegou à conclusão que não é essencial
saber exatamente qual foi o dia da conversão. PONDERE ISSO!
[1]
Catecismo da Igreja Católica, &1263: “Pelo Baptismo todos os pecados são
perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as
penas devidas ao pecado (61). Com efeito, naqueles que foram regenerados, nada
resta que os possa impedir de entrar no Reino de Deus: nem o pecado de Adão,
nem o pecado pessoal, nem as consequências do pecado, das quais a mais grave é
a separação de Deus.” – citado aqui na ortografia lusitana como consta no site
oficial do Vaticano em http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap1_1210-1419_po.html
acessado em 06/06/2015.
[2] At
20.21
[3] 1
Tm 3.6 – “não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça, e incorra na
condenação do diabo.”
[4] At
9
[5] Jo
4
[6] At
8.26. - 40
[7] At
16. 27 a 34
[8]
Muitos adeptos do “não julgueis” detestarão essa minha descrição de Finney, mas
poucos sabem que ele renegou diversas
doutrinas básicas do cristianismo como o pecado original, a expiação
substitutiva de Cristo, a justificação pela fé, ensinava a perda de salvação
diante de qualquer pecado, cria no perfeicionismo, e que o homem podia produzir
um avivamento sempre e quando o quisesse, bastando para tal apenas usar as “leis”...
não há como rotular alguém que negue a
expiação na cruz ou o pecado original ou pior, a justificação pela fé pela
imputação da justiça de Cristo aos que creem como qualquer outra coisa que não
herege. Para uma boa análise dos seus ensinos contrários às Escrituras e ao cristianismo histórico, sugiro a leitura de de um excelente artigo disponível em http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/403/o_legado_de_charles_finney